Baú de Ciências

Estimulamos pessoas a refletirem sobre seu mundo utilizando as Ciências como ferramenta.

Uma grande dificuldade de aprendizagem em ciências que você não pode ignorar e como superá-la

27/08/2015, por

Olá pessoal! Hoje quero apresentar e discutir com você a principal dificuldade que os meus estudantes enfrentaram durante o aprendizado de Ciências. Ao final do artigo também apresento uma proposta de solução.

Estou falando de uma dificuldade, de um obstáculo, que se manifesta quando o estudante se depara com o conhecimento científico, principalmente na área das ciências naturais, mas que também pode se apresentar ao estudar as áreas humanas.

Muitas vezes notamos, somente após a avaliação, que os estudantes não conseguiram entender muito bem alguns conceitos.

Durante a própria aula, também, já conseguimos perceber a insistência de algumas explicações equivocadas mesmo depois de ter explicado por vários minutos o assunto da melhor forma, e usando os mais diversos recursos tecnológicos.

Como eu me deparei com essa dificuldade

Muitas vezes notamos, somente após a avaliação, que os estudantes não conseguiram entender muito bem alguns conceitos.

Durante a própria aula, também, já conseguimos perceber a insistência de algumas explicações equivocadas mesmo depois de ter explicado por vários minutos o assunto da melhor forma, e usando os mais diversos recursos tecnológicos.

Era só fazer a linha igual à de baixo! Como não conseguiu entender?!

Dá uma grande frustração, não?

Lembro que isso começou a me incomodar em meados de 2008, ainda na faculdade, quando estava aplicando oficinas de atividades experimentais em escolas públicas.

Eu compartilhava do discurso de o problema no ensino de ciências era que não havia atividades experimentais. Então, era só fazê-las! (ô ingenuidade! ;P)

Aí imagina a frustração quando percebi que os estudantes continuavam explicando os fenômenos da mesma forma que antes das oficinas; exceto quando decoravam a resposta “certa”, é claro.

Isso me incomodava e a dúvida persistiu por anos – sempre que estava em sala de aula –, tanto que fui pesquisar sobre o assunto no mestrado em educação científica.

Saiba que existem várias razões para isso acontecer e não é por falta de clareza em sua aula, tampouco por ausência de esforços. Afinal, fazemos o máximo que conseguimos, não é?

Se você está com dificuldades para enfrentar a má compreensão dos assuntos, talvez você esteja apenas se esforçando para mudar as consequências e não a possível causa.

O entendimento e as explicações dos estudantes surgem com base em várias “formas de pensar”, que em geral é bem diferente da forma como o conhecimento científico foi gerado. Vou trabalhar essa ideia ao longo do texto.

Para ilustrar isso, gosto muito desta frase de Gaston Bachelard, em sua obra “A Formação do Espírito Científico”:

quando o espírito se apresenta à cultura científica, nunca é jovem. Aliás, é bem velho, porque tem a idade de seus preconceitos (BACHELARD, 1996, p. 18)

Vou citar o “tio” Bachelard em algumas ocasiões durante o texto, porque ele me ajudou bastante a entender os problemas que enfrentava no ensino de ciências. Eu realmente recomento a leitura desse livro!

Mas enfim...

Abaixo quero explicar o que entendo ser a principal fonte de dificuldades (obstáculo) de aprendizagem de meus alunos.

Existem outros obstáculos importantes, mas isso ficará para outra publicação.

Atitude Comum versus Atitude Científica: um obstáculo.

O que é:

Sabia que o pensamento científico e o pensamento do senso comum têm respostas diferentes para um mesmo fenômeno?

Por exemplo:

  • costumamos dizer ao vestir um agasalho grosso que ele aquece o nosso corpo e, o pensamento é que, quanto mais grosso, mais quente será. Concorda? Já na Ciência, entende-se que o agasalho é um isolante térmico, não uma fonte de calor.
  • É comum achar que ao largar um objeto relativamente pesado em um lago, como uma melancia, ela afundará na água, porque é pesada. Já na resposta científica, só afunda porque sua densidade é maior que a água, ou seja, a distribuição de massa no volume ocupado é que importa; não seu peso total.

Obs.: Talvez você nem tenha se incomodado por eu ter dito que a melancia afundou nesse meu experimento mental, mas ultimamente só tenho visto melancias pesadas flutuando na água (assim como navios), enquanto pedrinhas levíssimas afundam.

Bem, certamente conseguimos viver bem e nos comunicando usando do senso comum.

E por isso, quando colocamos os pés na sala de aula de ciências, já possuímos uma cultura experimental, uma atitude formada ao longo de nossas vidas.

Isso acarreta no que para mim é a principal dificuldade que os alunos irão apresentar: desenvolver uma atitude científica!

A primeira observação nunca é a mais segura...

Quantas vezes você parou para olhar diferente e refletir no dia a dia sobre todos os fenômenos comuns, tentou repetir ou replicar, perguntou-se se haveria outra forma de acontecer ou o que poderia acontecer se tentar mudar algum parâmetro?

Essa atitude comum, sem a intenção prévia de observar, não envolve o ato de questionar tampouco refazer o observado, apenas gravamos o ocorrido como uma imagem estática, um fato pronto.

Isso é um grande obstáculo de aprendizagem que precisa ser superado.

Estamos ajudando nossos estudantes a superar os obstáculos? ou colocando mais dificuldades ainda?

Já a construção das explicações científicas possui uma atitude, que vou chamar de atitude científica, onde o sujeito constrói o fenômeno que pretende explorar, pois possui ferramental (teórico e instrumental) para analisá-lo.

Essa construção do fenômeno parte de uma preparação teórica (incluindo os instrumentos) do quê e como observar.

O pêndulo de foucault foi um experimento de quase 70 m que corroborou que a Terra rotacionava, mas foi criado somente em 1851!

Nesse contexto, a formulação do problema assume um papel imprescindível para os cientistas,

“se não há pergunta, não pode haver conhecimento científico” (BACHELARD, 1996, p. 18).

Logo, é preciso saber como formular as perguntas e entender melhor o processo que está por trás do ato de conhecer, pois a natureza não é um livro (tampouco o google) com as informações expostas e de fácil acesso.

Mas o que isso tem a ver com ensino de ciências?

A ausência do “agir cientificamente” no ensino de ciências pode ser evidenciada pela excessiva valorização da resposta certa na sala de aula.

Cadê a pergunta? Talvez apareça só no final, após a resposta certa já ter sido apresentada.

A problematização, a construção de um problema a investigar, é etapa necessária à atitude científica. Esse “gatilho” da construção de saberes está muitas vezes ausente na nossa atual estrutura curricular e no diálogo didático.

Mais do que isso, por exemplo, os conteúdos presentes no ensino raramente trazem as perguntas, as dificuldades e os erros dos cientistas durante a produção do saber.

A borracha também é e foi utilizada por cientistas! ;P

Conseguir discutir esses aspectos com os estudantes já é bom caminho, não acha?

De qualquer modo, ainda estamos diante de um ensino de resultados, de conclusões, de respostas prontas.

Esta outra frase do Bachelard também é uma bordoada:

“o ensino de resultados da ciência nunca é um ensino científico” (1996, p. 289)

Quase perdi o sono quando li isso!

Como na ciência foi preciso superar diversos obstáculos para produzir os conhecimentos, também é preciso trabalhar e superar obstáculos no ensino de ciências. Recomendo que pelo menos esteja atento(a) à presença de obstáculos!

Se não se preocupar com isso, em boa parte das vezes, as explicações científicas vão parecer distantes do mundo do estudante, e, portanto, menos válidas que as representações prévias que possuem.

Sabe quando os estudantes perguntam para quê serve isso? Incomoda ouvir essa frase, né? Então...

Resumindo, vimos que os estudantes já possuem uma forma de interagir com fenômenos no dia a dia antes de conhecer a científica. E é por meio dessa atitude comum que constroem suas representações.

Essa atitude se mostra como uma dificuldade de aprendizagem porque gera as representações que, por sua vez, são as referências pessoais que utilizam para entender os conteúdos escolares.

Aí você ensina a utilizar a chave de boca no parafuso. Você entrega a ferramenta, mas ele só sabe usar o martelo e só conhece o prego.

Já o conhecimento científico e as representações científicas foram construídas de forma diferente, que, até certo ponto, é contrária à atitude comum.

Agora imagina você sendo apresentado a uma resposta diferente da sua, talvez até te contradizendo, sem ou com fraca argumentação; mais parecendo uma opinião. Qual das duas ideias você irá optar?

Certamente vai manter sua maneira de enxergar o mundo...

Podemos dizer que o estudante só será capaz de se apropriar do conhecimento científico se pelo menos compreender os processos que levaram à construção do mesmo.

Assim, quando você verifica em algum momento que houve uso de explicações equivocadas pelos estudantes, mesmo após suas aulas, saiba que há grande chance de o problema estar na “forma de pensar”, na atitude deles para com o conhecer.

Mas o que fazer para estimular a atitude científica no ensino?

Bem, após identificado esse problema – que reforço ter sido o principal incômodo nas minhas experiências em sala de aula –, o que faço para superá-lo?

Se a dificuldade de aprendizado está na “forma de pensar”, não na explicação em si, o problema a ser resolvido é: como estimular mudanças da atitude do estudante para uma atitude científica?

Bem, você precisa criar uma estratégia didática que estimule atitudes científicas como: identificação de problemas, elaboração de hipóteses, planejamento de testes e experimentos, registro e coletas de dados, reflexão e validação de hipóteses e elaboração de modelos explicativos.

Como faço para entender algo que não sei?

Nós trabalhamos no Baú com estratégias de resolução de situações-problemas e desafios, que também é conhecida por atividades investigativas.

Como faço para entender algo que não sei?

Ao aplicar esse tipo de estratégia no ensino fundamental você também irá explorar diversas competências e habilidades relacionadas à linguagem (comunicação e expressão)!

Segue abaixo uma proposta que apliquei em sala de aula para superar esse obstáculo à aprendizagem:

1. Primeiro de tudo! Problematização

Deixe claro qual é o problema que se quer resolver! Lance a pergunta-chave que motivará os estudantes a estudarem algum assunto.

Aproveite as perguntas que eles fazem nas aulas para investigar e estimular o estudo de algum tema.

2. 2. Sondagem e Compartilhamento

Discuta e compartilhe entre todos o que cada um sabe / acha sobre o assunto!

É um momento de liberdades das ideias!

Recomendo fortemente que haja um registro individual (ou pelo menos do grupo) do que se sabe e, não menos importante, daquilo que se quer saber e precisa pesquisar. Destaque as ideias diferentes, se surgirem, elas serão muito importantes depois também.

3. Investigação, experimentos e testes

Momento de buscar fontes de informação para resolver o problema ou realizar experimentos, sempre deixando o intuito bem claro.

4. Argumentação

Discussão, argumentação com base na análise de informações e dados coletados.

Também é o momento de mostrar a fragilidade e limitação das ideais prévias dos estudantes que se mostrarem equivocadas.

5. Organização e modelização

Hora de compartilhar os entendimentos e estimular a elaboração de modelos explicativos sobre o fenômeno ou problema estudado. Os modelos, por exemplo, podem ser apresentados em forma de textos, desenhos ou maquetes.

Altamente recomendado o registro final revisando a dúvida e o modelo explicativo.

Se houver impasse ou mais dados se mostrarem necessários, repete-se o processo de investigação.

Promova a satisfação de montar um modelo explicativo e a capacidade de resolver problemas

Você pode fazer um grande projeto de várias aulas ou até mesmo estimular essas atitudes em um único dia.

Não é todo dia que isso acontece, né? Que tal buscar mais dessa alegria por conhecer?

Gostaria de saber mais sobre o assunto ou como isso pode ser feito na sua escola? Entre em contato conosco ou comente abaixo.

Lembre-se que já é um ato importantantíssimo, toda ação que você fizer (ou até mesmo já faça), mesmo que pequena, que tente superar esse obstáculo da atitude comum e aproxime os estudantes da atitude científica.

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