Baú de Ciências

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[Relato] Chega! Não vou mais "fingir" que ensino enquanto o aluno "finge" que aprende. Por que estou mudando meu papel enquanto professor.

02/09/2015, por

Você não cansa de trabalhar, trabalhar e trabalhar e continuar obtendo os mesmos resultados ruins? Eu cansei. Neste artigo, relato o porquê de estar mudando minhas aulas e o meu papel nelas.

Comecei a lecionar em 2007, ensinando ciências no ensino fundamental e aquele ano foi muito especial para mim, pois me apaixonei pela profissão.

Concluí a licenciatura em Física em 2011 e, desde então, só lecionei para estudantes do ensino médio. Em 2014, tornei-me professor efetivo em escolas publicas da rede estadual do estado de Santa Catarina.

Sempre crio boas expectativas quando inicio um novo trabalho. Sou um otimista, acho que está no meu DNA.

Ainda enxergo o que posso fazer pela educação.

O problema

Até recentemente, entrava em sala e começava a aula sempre focando no aprendizado do conteúdo, para vencer o currículo, pois, um dia, eles irão fazer vestibulares e ENEM.

Elaboro aulas “diferenciadas”, contendo experiências práticas, músicas, histórias em quadrinhos e filmes, e o resultado tem sido o mesmo: baixo desempenho, mesmo apesar de os estudantes estarem interessados.

Certamente a culpa também não é do giz e do quadro.

Isso acontece em mais de uma escola. Percebo que muitos estudam, não por terem metas pessoais ou engajamento próprio, mas sim por serem cobrados pelos pais, professores e coordenadores, pois estes, por sua vez, são cobrados pelo sistema e pela sociedade.

É muito comum ainda ouvir pais e, o mais surpreendente, ouvir de alunos se uma aula foi boa ou não pela quantidade de texto que preencheu no caderno. E dadas as circunstâncias, quando um jovem se rebela é compelido a se enquadrar no sistema.

O que ele está precisando, então? E o que estou oferecendo?

Mas quando vejo o desempenho dos estudantes dos terceiros anos do ensino médio, no final do ano letivo, fico convencido que a escola, o sistema do qual faço parte, não os preparou para o vestibular e muito menos para a vida.

Durante muito tempo acreditei e resisti à ideia que o preparo para a vida não deveria ser papel da escola. Para mim, a escola deveria oferecer conhecimento formal e saberes acadêmicos.

O que está acontecendo fora da escola compete com ela ou difere daquilo que está nela?

Todos os anos acompanho os resultados de avaliações e índices nacionais e as conclusões são catastróficas. Você talvez saiba que, segundo dados governamentais, 90% dos estudantes não adquirem o mínimo que se espera para a série e idade e, também, apenas 54% terminam o ensino médio antes dos 19 anos!

Esses resultados não afetam somente a vida dos estudantes e sim de nossa nação inteira.

Como então podemos acreditar que ofereceremos uma vida melhor para nossos filhos e netos se ignoramos isso?

As universidades têm vagas para a maioria dos estudantes se as escolas básicas cumprirem seus objetivos acadêmicos?

Se a maioria esmagadora não entra e não irá entrar nas universidades, por que insistir na ideia de que o mais importante para o professor é ensinar o conteúdo necessário para os estudantes passarem no vestibular?

Senti-me à deriva quando deixei de acreditar que é fundamental para a formação dos estudantes, por exemplo, ter que ensinar as leis de Newton e de Kepler, bem como as forças em campos eletromagnéticos.

Aí me perguntei: O QUE FAZER AGORA?

Bom, tudo! Exceto agir com hipocrisia e jamais me deixar convencer por muitos pensamentos que já ouvi por aí: “não adianta o que irás fazer, os alunos não aprendem”.

Estou estudando e conhecendo novos projetos e propostas educacionais, pesquisando na internet e conversando com colegas.

Estou convencido de que é possível fazer diferente. Pretendo sim radicalizar, superar paradigmas e revisar meu papel de professor em sala de aula.

Se os conteúdos que ensino não estão sendo aprendidos, qual é o meu papel?

Quero focar em uma educação humana integral (para além do acadêmico) cada vez menos fragmentada e construir um currículo coletivamente (entre professores e estudantes), que ultrapasse as dimensões do currículo escolar.

Quero, também, considerar em minhas práticas, ações que levem em conta a identidade dos jovens, como ele se percebe e interage com o mundo, buscando relações entre trabalho, cultura, ciência e tecnologia.

Agora estou desenvolvendo e realizando um projeto que chamei de Ciências sem paredes, que é uma adaptação de propostas de ensino que vem sendo desenvolvidos em algumas escolas do Brasil, como, por exemplo, na Escola Municipal Desembargador Amorim Lima, inspirada na escola da ponte em Portugal; também estou utilizando elementos do projeto Mão na Massa – ABC da educação científica / USP.

Como em minha escola ainda estou sozinho nessa jornada, comecei com apenas as turmas dos primeiros anos do ensino médio.

A ideia central é que estudantes desenvolvam estudos em assuntos de seus interesses, qualquer assunto, e depois que os trabalhos estiverem prontos iremos convidar estudantes do ensino fundamental para conhecer os estudos.

Não estou dizendo que não ensinarei conteúdos de Física, mas eles serão utilizados quando forem necessários, contextualizados. Afinal, quando se ensina, aprende-se; e muito, não é mesmo?!

Os conteúdos e saberes estarão voando por aí, acho que basta ensinar a pegá-los.

Como é um novo terreno para mim, resolvi ser cauteloso e começar sem atropelar passos que julgo importantes.

A princípio, os estudantes gostaram da ideia e estão engajados, mas é muito cedo para tirar conclusões e pretendo analisar os resultados no final deste ano (2015).

Sei que não sou o primeiro a enfrentar preocupações que estou relatando. Mas serei mais um do lado de quem acredita que as escolas de hoje estão ultrapassadas.

Deixo um convite ao debate, colegas! Abaixo deste artigo há um campo de comentários.

  • Você acha que estou no caminho certo?
  • Já testou algo do tipo e tem dicas ou resultados concretos?
  • Conhece outras ideias de como posso melhor resolver esse problema que apontei?
  • Acha que estou entendendo o problema de forma errada? O que devo fazer, então?

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