Baú de Ciências

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Você ensina Ciências por completo ou só pela metade?

05/02/2016, por

Você é um professor pela metade? Provavelmente estranhe essa pergunta, mas talvez isso esteja acontecendo sem perceber. Confesso que volta e meia isso acontece comigo e preciso me cuidar.

Para entender melhor, faço outra pergunta: Você ensina ciências por completo ou pela metade? Descubra neste artigo porque muitas vezes somos professores, de certo modo, pela metade.

E você? É um(a) professor(a) de ciências 50% ou 100%?

O DESAFIO DE ENSINAR CIÊNCIAS

Quem está ensinando ciências, tem o desafio de abordar diversos fenômenos naturais sob um olhar específico, o do corpo de conhecimento científico, que possui um conjunto de saberes e métodos particulares de produção de conhecimento.

Mas esses dois componentes, saberes e formas de produção, raramente foram estudados pelos professores em sua formação inicial.

Esse tipo de conhecimento contempla modelos explicativos para origem e desenvolvimento do universo e da vida e também fenômenos que podem parecer mais simples, mas certamente não menos complexos e abstratos, como: o que faz as coisas caírem, aquecerem, crescerem, mudarem de forma ou aspecto, esfriarem, flutuarem etc..

Para compreender os assuntos e modelos científicos, além de aprender conteúdos específicos como os apresentados acima, existem pesquisadores em educação e cientistas naturais indicando que os alunos precisam aprender também aspectos processuais, ou seja, sobre a forma como estes conteúdos são construídos, pois isso também ajuda em muito a compreensão dos conceitos.

Leia neste artigo do blog como surgem dificuldades de aprendizado por causa disso!

Mas que processos são esses?

Eles estão relacionados a observar, classificar, gerar hipóteses, resolver problemas, planejar ações para testes, tomar decisões, entre outros.

Esses processos são considerados importantes competências para os alunos compreenderem e interagirem melhor com o mundo que os cerca, preparando-os para a vida num sentido mais amplo.

Mas será que você está ensinando aos alunos os dois lados da moeda da ciência? Você é um professor 50%, que só ensina os conteúdos, ou é 100%, que ensina aspectos processuais + conteúdo?

Vou apresentar duas situações fictícias para você fazer esta análise!

Cenário A - O ar ocupa espaço?

No quarto ano do ensino fundamental, o professor Rafael prepara uma experiência para mostrar de forma visível que o ar ocupa lugar no espaço. Para isso, apresenta os materiais que serão utilizados:

  • copo de vidro;
  • recipiente de vidro com água para embocar o copo;
  • folha de papel.

Ele prepara a experiência, preenche parte do recipiente de vidro com água e escolhe um aluno para realizar a demonstração.

Solicita ao aluno que mergulhe cuidadosamente o copo com a boca virada para baixo no recipiente, solicitando que todos observem atentamente o que irá ocorrer.

Todos estão curiosos para ver o que acontecerá! Os alunos percebem que a água não entra no copo, e ficam abismados!

Assim o professor conclui que isso se deve ao fato de o ar estar ocupando o espaço dentro do copo. Para reforçar a ideia, solicita que o aluno coloque uma folha de papel dentro do copo e mergulhe-o novamente.

Em seguida, retira o copo da água e mostra que o papel está seco, e conclui: “a água não entrou no copo porque há ar dentro dele”.

Cenário B - O ar ocupa espaço?

No quarto ano do ensino fundamental, a professora Priscila prepara uma experiência para realizar com os alunos, objetivando que percebam que o ar ocupa lugar no espaço. Ela então aproxima os alunos de uma carteira contendo:

  • copo de vidro;
  • recipiente de vidro com água para embocar o copo;
  • folha de papel.

Antes de iniciar a experiência, solicita para os alunos darem ideias sobre como o copo deverá ser colocado na água, caso haja uma folha de papel amassada em seu interior, de forma que o papel não molhe.

Eles sugerem mergulhar o copo lentamente na água, mas com a boca para cima; colocar o copo deitado; colocar só uma parte do copo; entre outras sugestões.

Quando não anota as ideias no quadro, Priscila sugere que os estudantes registrem suas ideias em seus cadernos, seja por meio de desenhos ou escrito.

Após darem seus palpites, Priscila começa a testá-los. Ao longo dos testes, questiona os alunos sobre as razões que fizeram com que a água entrasse ou não dentro do copo.

Quando o copo é mergulhado na água com a boca para baixo, os alunos percebem que o papel não sai molhado. Então a professora pergunta: o que aconteceu para que desta vez o papel não tenha molhado?

Os alunos começam a elaborar explicações para o ocorrido, por exemplo: um aluno diz que a folha não deixou a água entrar; outros dizem que a água simplesmente não pode entrar no copo desta maneira.

Neste momento Priscila faz uma nova experiência com o copo ainda mergulhado. Gira-o lentamente no sentido de colocar sua boca para cima. Algumas bolhas começam a sair do copo, pela água do recipiente.

Os alunos então começam a dizer que tem ar saindo do copo. Então, a professora tira o copo lentamente, mas novamente com a boca virada para baixo.

Verifica o papel e mostra que, agora, o mesmo ficou molhado.

Com os novos resultados, Priscila pergunta por que a o papel nesta situação molhou. Os alunos, por exemplo, começam a sugerir que o ar saiu pelas bolhas e a água começou a entrar no copo...

Você se identificou com alguma das situações?

Nota-se que, no cenário A, o professor dá pouco espaço para o aluno pensar e praticar competências científicas. A atividade prática aparece como tentativa de convencer os alunos de uma reposta que já existe, que já foi apresentada: o ar ocupa espaço dentro do copo, e isso explica porque a água não entra nele.

No cenário B, no entanto, é proposto que os alunos imaginem uma maneira de responder a uma pergunta. Como colocar o copo na água de forma que a folha de papel em seu interior não molhe?

Isso faz os alunos pensarem em estratégias para testar o fenômeno e surgem hipóteses. Essas ideias serão postas em xeque, logo em seguida, nos testes comandados pela professora.

É importante salientar que o registro é uma ferramenta poderosa para o pensamento dos estudantes.

Partindo disso, a professora Priscila incita os alunos a buscarem explicações sobre o que ocorreu, ou seja, analisarem os resultados a respeito dos testes que eles pensaram.

Neste caso, enquanto os alunos estão buscando uma reposta para a pergunta inicialmente apresentada, estão praticando algumas competências que se aproximam da forma com que os cientistas trabalham. Ao mesmo tempo, são os alunos que construíram a mesma resposta dada no cenário A.

Conseguiu descobrir que tipo de professor você é? Claro que há outras maneiras de realizar as atividades apresentadas nos cenários A e B. Mas quero destacar que, tirar a oportunidade de o aluno pensar, criar, imaginar, testar e refletir sobre seus pensamentos, sobre suas ideias, é afastá-lo da ciência, ainda que o professor utilize experiências práticas na sala de aula.

Continue lendo mais sobre esse assunto em...

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